Autocuidado feminino após a maternidade: o que a ciência revela sobre identidade, sobrecarga emocional e saúde mental materna
- Psicóloga Sthefane Fidelis

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Atualizado: há 11 horas

A maternidade é frequentemente apresentada socialmente como uma experiência naturalmente gratificante, intuitiva e plena. Entretanto, sob uma perspectiva psicológica e neurocomportamental, a transição para o exercício
do cuidado contínuo, seja por meio da gestação biológica, adoção, maternagem socioafetiva ou cuidado parental prolongado, representa um dos períodos de maior reorganização emocional, cognitiva e identitária na vida de uma mulher.
Embora o nascimento de um filho seja socialmente associado à ideia de realização, os estudos contemporâneos em saúde mental materna demonstram que a maternidade também pode estar relacionada ao aumento da vulnerabilidade psicológica, especialmente quando associada à sobrecarga emocional, privação de sono, isolamento social, pressão cultural e ausência de suporte funcional. Segundo Queiroz, Castro e Araújo (2019), fatores como apoio social, suporte emocional e condições adequadas de cuidado apresentam relação significativa com proteção da saúde mental no período gestacional e pós-parto.
Nesse contexto, o autocuidado feminino deixa de ser um conceito superficial relacionado apenas à estética ou lazer e passa a ser compreendido como fator protetivo para saúde mental, regulação emocional, preservação identitária e qualidade dos vínculos familiares.
A maternidade como reorganização psíquica
A psicologia perinatal compreende a maternidade como um processo de reorganização subjetiva profunda, não se trata apenas de uma mudança de rotina, mas de uma alteração significativa na percepção de identidade, funcionalidade e papel social.
Do ponto de vista neuropsicológico, a maternidade exige adaptações cognitivas constantes relacionadas à vigilância, planejamento, antecipação de demandas, responsividade emocional e capacidade de regulação comportamental. Esse estado prolongado de hiperatenção pode aumentar a carga cognitiva e favorecer quadros de exaustão emocional quando não há suporte adequado.
Além disso, a mulher frequentemente vivencia um conflito entre diferentes papéis sociais: mãe, profissional, parceira, filha, cuidadora e indivíduo. Quando esses papéis tornam-se excessivamente centrados no cuidado do outro, ocorre um apagamento gradual das próprias necessidades emocionais.
Acosta et al. (2012) descrevem que muitas mulheres vivenciam dificuldades no processo de autocuidado durante o puerpério, especialmente em razão das demandas intensas do cuidado materno e das expectativas sociais relacionadas à maternidade. A literatura também aponta que sentimentos de culpa, insuficiência e perda identitária são frequentes nesse período.
A romantização da sobrecarga feminina
Historicamente, o sofrimento materno foi naturalizado como parte inerente da maternidade. Culturalmente, mulheres são frequentemente reforçadas por suportarem altos níveis de sobrecarga, privação e renúncia pessoal.
Entretanto, estudos em saúde mental demonstram que a exposição contínua ao estresse parental sem estratégias adequadas de enfrentamento pode gerar importantes prejuízos emocionais e funcionais.
O conceito de burnout parental vem sendo estudado nos últimos anos e refere-se a um estado de exaustão intensa relacionado especificamente ao exercício da parentalidade. Diferentemente do estresse cotidiano, o burnout parental envolve fadiga emocional persistente, distanciamento afetivo, sensação de incompetência parental e perda de satisfação no cuidado.
Silva et al. (2025) destacam que o burnout materno está associado à sobrecarga crônica de responsabilidades, ausência de rede de apoio e pressão social relacionada à idealização da maternidade. Os autores apontam ainda que mulheres submetidas a elevados níveis de exaustão emocional apresentam maior risco para sofrimento psíquico significativo.
Revisão publicada por estudos na área da enfermagem e saúde mental demonstra que fatores como privação de sono, acúmulo de funções, desigualdade na divisão das tarefas domésticas e ausência de suporte social aumentam substancialmente os níveis de desgaste emocional materno.
A sobrecarga mental invisível
Um dos conceitos mais discutidos atualmente é o de carga mental feminina. Trata-se da responsabilização cognitiva constante pela organização e antecipação das demandas familiares e domésticas.
Mesmo quando há divisão prática de tarefas, frequentemente permanece com a mulher a responsabilidade pelo planejamento mental da rotina: lembrar horários, organizar compromissos, monitorar necessidades emocionais, prever problemas e sustentar o funcionamento familiar.
Pereira et al. (2026) apontam que o trabalho invisível do cuidado possui relação direta com sofrimento psíquico em mães trabalhadoras, especialmente em contextos nos quais existe divisão desigual das responsabilidades familiares ou ausência de rede de apoio.
Esse estado contínuo de vigilância cognitiva pode favorecer sintomas como:
fadiga mental;
irritabilidade;
dificuldade de concentração;
sensação de incapacidade;
ansiedade persistente;
alterações de humor;
redução de interesse em atividades anteriormente prazerosas.
Além disso, Rocha e Souza (2026) descrevem que a sobrecarga mental no puerpério pode impactar negativamente a qualidade de vida, o funcionamento emocional e a capacidade de regulação psicológica da mulher.
Autocuidado como fator de proteção em saúde mental
Na Psicologia Baseada em Evidências, autocuidado é compreendido como um conjunto de comportamentos voltados à preservação da saúde física, emocional e funcional do indivíduo.
No contexto materno, autocuidado não significa ausência de dedicação aos filhos, mas sim manutenção mínima das próprias necessidades emocionais e fisiológicas.
Queiroz, Castro e Araújo (2019) demonstram que mulheres que possuem maior percepção de suporte social e emocional apresentam menores índices de depressão pós-parto e melhor adaptação emocional à maternidade.
Da mesma forma, Quirino et al. (2016) observaram que práticas de autocuidado no primeiro ano pós-parto estão associadas à melhora do bem-estar emocional e à redução de indicadores de sofrimento psicológico.
Entre os fatores protetivos mais associados à saúde mental materna estão:
rede de apoio funcional;
divisão equilibrada de responsabilidades;
sono adequado;
suporte conjugal;
acompanhamento psicológico;
validação emocional;
manutenção da identidade individual;
práticas de regulação emocional;
acesso à informação em saúde mental.
Do ponto de vista clínico, o autocuidado também está relacionado à prevenção de agravamentos emocionais importantes, como episódios depressivos, transtornos ansiosos e esgotamento mental.
A culpa materna e o mito da perfeição
Outro aspecto amplamente discutido na literatura é a culpa materna. Muitas mulheres internalizam expectativas irreais de desempenho, acreditando que precisam estar emocionalmente disponíveis integralmente, sem falhas ou limitações.
Sob a perspectiva cognitivo-comportamental, pensamentos disfuncionais relacionados à perfeição parental podem aumentar sofrimento emocional, autocrítica excessiva e sensação persistente de inadequação.
Barros e Aguiar (2019) descrevem que mulheres com sintomas depressivos no pós-parto frequentemente apresentam sentimentos intensos de incapacidade, culpa e autocrítica, especialmente diante das expectativas idealizadas relacionadas ao papel materno.
A idealização social da “mãe perfeita” frequentemente impede mulheres de reconhecerem seus próprios limites sem sentirem culpa. Entretanto, do ponto de vista do desenvolvimento infantil, crianças não necessitam de figuras parentais perfeitas, precisam, sobretudo, de vínculos suficientemente seguros, responsivos e emocionalmente consistentes.
Isso significa que preservar a saúde mental materna não beneficia apenas a mulher, mas também influencia diretamente a qualidade das relações familiares e do desenvolvimento socioemocional infantil.
Quando o cuidado do outro exige o abandono de si
Existe uma diferença importante entre dedicação e auto sacrifício crônico.
Quando uma mulher passa longos períodos negligenciando sono, alimentação, descanso, lazer, vínculos sociais e necessidades emocionais, o organismo tende a responder através de sinais físicos e psicológicos progressivos.
O problema é que muitas mulheres só percebem o nível de esgotamento quando já estão emocionalmente colapsadas.
A clínica psicológica contemporânea tem observado aumento significativo de mulheres que chegam ao atendimento relatando:
sensação de vazio;
perda da própria identidade;
desconexão consigo mesmas;
irritabilidade constante;
sensação de funcionar “no automático”;
dificuldade de sentir prazer;
exaustão persistente;
sobrecarga emocional crônica.
Acosta et al. (2012) ressaltam que a mulher no período pós-parto frequentemente prioriza integralmente as demandas do bebê em detrimento das próprias necessidades, favorecendo negligência do autocuidado físico e emocional.
Em muitos casos, essas mulheres não deixaram de amar seus filhos. Apenas deixaram de existir para além da função de cuidado.
O autocuidado também é um modelo emocional para os filhos
Existe ainda um aspecto frequentemente negligenciado: crianças aprendem observando como adultos cuidam de si mesmos.
Quando uma criança cresce em um ambiente onde a figura materna vive constantemente exausta, sem limites, sem descanso e emocionalmente anulada, ela também aprende, implicitamente, que amar significa adoecer pelo outro.
Por outro lado, quando observa adultos que conseguem reconhecer limites, pedir ajuda, descansar e preservar aspectos da própria identidade, aprende modelos mais saudáveis de regulação emocional e autocuidado.
Assim, o autocuidado feminino não deve ser entendido como oposição ao amor materno, mas como condição necessária para um cuidado emocionalmente sustentável.
Considerações finais
A maternidade transforma profundamente a experiência subjetiva feminina. Contudo, nenhuma mulher deveria precisar desaparecer completamente para exercer o cuidado.
A ciência tem demonstrado, de forma consistente, que suporte social, divisão funcional de responsabilidades, validação emocional e preservação da individualidade são fatores essenciais para proteção da saúde mental materna.
Falar sobre autocuidado feminino após a maternidade não é incentivar individualismo. É reconhecer que mulheres também possuem necessidades emocionais legítimas e que o cuidado contínuo sem suporte adequado pode produzir sofrimento psíquico significativo.
Cuidar de si, nesse contexto, não é luxo. É prevenção em saúde mental, regulação emocional, preservação identitária, e, sobretudo, uma forma mais sustentável de continuar cuidando.
Referências
ACOSTA, Daniele Ferreira et al. Influências, crenças e práticas no autocuidado das puérperas. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 46, n. 6, p. 1327-1333, 2012.
BARROS, Marcos Vinícius Vieira; AGUIAR, Ricardo Saraiva. Perfil sociodemográfico e psicossocial de mulheres com depressão pós-parto: uma revisão integrativa. Journal of Health Care, Brasília, v. 17, n. 59, 2019.
PEREIRA, Laise Fagundes et al. Trabalho de cuidado e saúde mental: estudo com mães trabalhadoras em relações heterossexuais. Psi UNISC, Santa Cruz do Sul, 2026.
QUEIROZ, Lorena Gonçalves; CASTRO, Gabriela Cristina Lopes de; ARAÚJO, Mara Lívia. Saúde mental na gestação e no pós-parto: estudo dos fatores de proteção. Revista Mineira de Ciências da Saúde, Patos de Minas, n. 6, 2019.
QUIRINO, Áurea Fabrícia Amâncio et al. Práticas de autocuidado no primeiro ano pós-parto. Ciência, Cuidado e Saúde, Maringá, v. 15, n. 3, 2016.
ROCHA, Joyce Ellen Lobato; SOUZA, Maria Tereza Pereira de. Sobrecarga mental no puerpério: implicações para o cuidado de enfermagem na atenção primária. Revista FT, 2026.
SILVA, Jhenyffer de Oliveira et al. Burnout materno: o impacto na saúde mental na maternidade solo. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, 2025.





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