A DITADURA DOS NÚMEROS: COMO O IDEB E O SAEB IMPACTAM A SAÚDE MENTAL DOS PROFESSORES
Atualizado: 8 de ago.
Vivenciar a escola pública é transitar diariamente entre o encanto da transformação pedagógica e o peso de exigências que, muitas vezes, parecem sufocar a dimensão humana do processo educativo. Periodicamente, as redes de ensino entram em um ritmo frenético com a chegada das avaliações em larga escala, como o SAEB, e a expectativa pela divulgação do IDEB. A rotina pedagógica, que deveria ser um espaço de troca e construção de sentido, ganha contornos de corrida contra o tempo - dominada por simulados, planilhas e uma cobrança silenciosa que paira no ar.
Como profissional que atua justamente no encontro entre a Psicologia e a Educação, acompanho esse movimento sob duas perspectivas que se cruzam o tempo todo: a do chão da escola, onde a vida real acontece, e a da escuta clínica, onde as dores desse processo deságuam.
Diante dessa engrenagem, o questionamento torna-se inevitável: até que ponto a busca por um número reflete a real qualidade da educação? E, acima de tudo, qual é o custo psicológico dessa engrenagem para quem ensina?
O Retrato Humano por Trás das Estatísticas
Muitas vezes, o debate público sobre a qualidade da educação fica restrito a discursos políticos e dados gráficos “cheios de otimismo”. Mas os dados sobre quem sustenta essa engrenagem revelam uma crise profunda que os números do Ministério da Educação não mostram nas matérias de jornal.
Os levantamentos recentes sobre a categoria deixam esse cenário evidente:
Esgotamento Psicológico: Dados do Instituto Nova Escola e da CNTE apontam que mais de 60% dos professores da rede pública já precisaram se afastar do trabalho por questões de saúde mental, tendo a ansiedade, a depressão e o Burnout como protagonistas.
Estresse Crônico: Cerca de 80% dos educadores relatam sintomas frequentes de estresse acentuado, com picos críticos justamente nos meses que antecedem as avaliações em larga escala.
A Ilusão da Igualdade: O próprio Inep reconhece que os índices do IDEB acompanham quase perfeitamente o Nível Socioeconômico (NSE) das comunidades. Na prática, o teste mede, em grande parte, a vulnerabilidade social daquela região — mas a cobrança por "superar a meta" recai quase inteiramente sobre as costas do professor.
Quando olhamos para esses números, fica claro: não estamos falando de casos isolados de cansaço. Estamos falando de um modelo que adoece sistematicamente.
A Redução da Complexidade Escolar a uma Nota
O SAEB e o IDEB foram concebidos com a premissa legítima de mapear o aprendizado e orientar políticas públicas. O problema surge quando a avaliação diagnóstica se converte em um mecanismo punitivo ou de ranqueamento.
A escola pública lida diariamente com marcadores sociais complexos:
Vulnerabilidade socioeconômica e insegurança alimentar das famílias;
Falta de infraestrutura básica nas unidades escolares;
Defasagens históricas de aprendizagem e falta de suporte multidisciplinar.
Ao condensar toda a dinâmica escolar em um índice numérico, desconsidera-se a singularidade de cada contexto. A cobrança por metas muitas vezes desregula a autonomia pedagógica, empurrando o fazer docente para o treinamento de rotinas de testes em detrimento de uma aprendizagem significativa e emancipatória.

O Impacto Subjetivo na Saúde do Professor
A escuta clínica e a vivência diária no ambiente escolar revelam que esse modelo de pressão contínua não se manifesta de forma isolada. Ele segue um percurso silencioso, porém muito bem definido, de desgaste emocional.

Como ilustrado no esquema acima, essa engrenagem começa na cobrança por metas rígidas e avança até a exaustão extrema. Quando os resultados nos índices não atingem as expectativas institucionais, a responsabilidade é quase sempre individualizada no professor, gerando um profundo sentimento de insuficiência e culpabilização.
Nos meses que antecedem as avaliações, a ansiedade de desempenho transforma a rotina em uma corrida contra o tempo, gerando hipervigilância, insônia e dores psicossomáticas. A mente não desliga e o corpo sente o peso da cobrança.
O problema se aprofunda quando o professor percebe que, por mais que se empenhe, a nota final depende de vulnerabilidades sociais que ele não pode resolver sozinho. Esse abismo entre o superesforço e a sensação de impotência é o gatilho para a Síndrome de Burnout — um colapso que vai além do cansaço físico, gerando um distanciamento afetivo da turma e a perda do próprio sentido de educar.
Avaliar Sim, Adoecer Não: Caminhos para o Futuro
Criticar a forma como o IDEB e o SAEB são aplicados hoje não significa ser contra a avaliação da educação. Avaliar é preciso. No entanto, uma métrica que se sustenta sobre o adoecimento do trabalhador é o sintoma de um sistema que falhou na sua premissa básica.
Para mudarmos esse cenário, precisamos caminhar em direção a uma avaliação mais humana e realista:
Olhar Multidimensional: A qualidade da escola não pode ser medida por uma única nota. Precisamos considerar clima escolar, inclusão, permanência e a própria saúde da equipe pedagógica.
Avaliarmos para Apoiar, Não para Punir: Os dados das avaliações devem servir para enviar mais recursos, psicólogos e assistentes sociais (como prevê a Lei 13.935/19) para as escolas mais vulneráveis, e não para estigmatizá-las.
Espaços Efetivos de Cuidado: Cuidar da saúde mental de quem ensina precisa deixar de ser um discurso bonito e se tornar uma política pública contínua dentro das secretarias de educação.
Cuidar de Quem Educa é Pressuposto para uma Educação de Qualidade
Não existe índice alto que se sustente sobre o adoecimento de uma equipe pedagógica. Para podermos promover a saúde emocional e o desenvolvimento pleno de crianças e jovens, precisamos, em primeiro lugar, garantir que os professores estejam saudáveis, acolhidos e valorizados.
Se você é educador e tem sentido o peso das cobranças no seu dia a dia, lembre-se: sua saúde mental é infinitamente mais importante do que qualquer meta numérica.
Psicóloga Jessyka Marques
CRP 05/84351
(22) 98118-2873
REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei nº 13.935, de 11 de dezembro de 2019. Dispõe sobre a prestação de serviços de psicologia e de serviço social nas redes públicas de educação básica. Brasília, DF: Presidência da República, 2019. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/l13935.htm. Acesso em: 07 ago. 2026.
CNTE – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação. Pesquisa sobre a saúde dos trabalhadores da educação no Brasil. Brasília, DF: CNTE, [s.d.].
GOODHART, Charles A. E. Problems of Monetary Management: The U.K. Experience. In: Papers in Monetary Economics, Vol. I. Sydney: Reserve Bank of Australia, 1975. (Origem da Lei de Goodhart: "Quando uma medida torna-se uma meta, ela deixa de ser uma boa medida").
INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e Indicador de Nível Socioeconômico (Inse). Brasília, DF: Ministério da Educação, [s.d.].
INSTITUTO NOVA ESCOLA. Pesquisa Saúde Mental dos Professores. São Paulo: Associação Nova Escola, [s.d.].
STRATHERN, Marilyn. ‘Improving ratings’: audit in the British University system. European Review, v. 5, n. 3, p. 305-321, 1997. (Formulação acadêmica clássica da Lei de Goodhart no contexto educacional e institucional).






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